A pregação de Jesus era diametralmente oposta às exigências farisaicas em relação ao comportamento cotidiano não relacional, como as tradições referentes aos alimentos etc. Muitas de suas propostas são tomadas deles.


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A pregação de Jesus era diametralmente oposta às exigências farisaicas em relação ao comportamento cotidiano não relacional, como as tradições referentes aos alimentos etc. Muitas de suas propostas são tomadas deles. Só os doutores podiam discernir entre o bem e o mal de qualquer fato ou coisa, por que as regras geralmente eram desconhecidas. Cumprir a lei se traduzia no farisaísmo a um esforço positivo. As boas ou más ações eram premiadas ou castigadas pela divindade.
No farisaísmo cada indivíduo era mensurado no tocante à sua honradez, segundo as suas obras. Os pecados podiam ser expiados mediante o amor (a caridade), a contrição (jejum) ou a punição individual ou coletiva. Yahweh era, segundo os fariseus, um Deus vingativo. Para eles era melhor ser uma sociedade baseada em rituais de pureza e denúncia dos pecados alheios - e expiação dos próprios – do que estar sujeito à fúria de Deus.
 Os fariseus criam também na misericórdia de Deus e no advento do Messias, responsável por estabelecer na terra o Reino de Deus, tendo fim toda a opressão, porém, num futuro longínquo – conceito muito similar ao de outros movimentos messiânicos da época. No entanto, não há um sentimento unânime sobre este tema. Outra questão aberta para os fariseus era a questão da vida após a morte. A condição para esta vida, se os justos a gozariam restritamente ou se esta era universal, se a alma dos injustos cessaria ou seria condenada eternamente: são todas estas questões abertas no período de Jesus para os fariseus.
 Além disto, os fariseus recusavam o messianismo (não obstante crerem no advento de um Messias), consideravam-se a si mesmos o verdadeiro Israel ou intérpretes da lei de Deus, e não aceitavam outras interpretações teológicas opostas as deles, pois as consideravam distorções da verdade. Os fariseus não entendiam, como os saduceus, ser a salvação exclusiva aos judeus de Israel e não aberta também para os judeus estrangeiros. Alguns fariseus chegaram a propor que alguns gentios justos também podiam desfrutá-lo, porém estes constituíam um grupo minoritário. Podiam-se incorporar os gentios à religião judaica e alguns conversos, depois de aceitar o batismo – a travessia do mar Vermelho – deveriam praticar a circuncisão, e este era um grande obstáculo para os estrangeiros. As mulheres gentias não podiam se agregar à comunidade.  Os movimentos religiosos messiânicos apresentam maior complexidade, já que suas expectativas são complexas e difusas, e as interpretações apresentadas às suas doutrinas são diversas, e suas características são mutáveis com o tempo. Distinguem-se dois grupos principais: os zelotes e os essênios.
Os Zelotes
Os zelotes são grupos messiânicos caracterizados por ter uma intencionalidade política devido à interpretação que apresentam de que a chegada do Messias é iminente. Os zelotes associam esta chegada a uma mudança política (a expulsão dos romanos). Estes movimentos são acompanhados de uma atividade militar e desejo de controle de territórios.
 Os zelotes – que têm representantes no grupo de Jesus – compartilhavam das idéias dos fariseus e essênios, cujo ponto central é a interpretação do primeiro mandamento do decálogo: “o Reino de Deus é Israel” ou “nada que seja temporal e mundano é compatível com o Reino de Deus.” Estes discípulos são os seguintes: “Os evangelhos mencionam, inadvertidamente talvez, o nome de quatro discípulos que têm ligações coma ideologia revolucionária dos nacionalistas: Simão, um zelota confesso, e Judas Iscariotes (Mt 10,4; Lc 6.15); Pedro, cujo caráter nos é apresentado como sendo impetuoso e dominado por explosões emotivas (Lc 22.33. 49-50); e Tiago e João, que são denominados eufemisticamente ‘Boanerges’, ou seja, ‘filhos do trovão’ (Mc 3.17).”
Quando falam de liberdade, os zelotes estavam fazendo referência à liberdade religiosa – e esta, na visão zelote, dependia da intervenção divina. Mas os zelotes também defendiam a necessidade de liberdade política em relação aos romanos. Mas esta última só podia ser obtida a partir do sacrifício e do martírio voluntário.
 Este martírio, ideia existente no judaísmo primitivo, que foi legada ao cristianismo, traz como recompensa a salvação da alma. Não era uma ideia restrita aos zelotes, já que os fariseus adotavam a mesma ideia no tocante à guarda dos rituais. Este fanatismo religioso, ligado à sincera crença nos valores defendidos pelos grupos, explica em parte a sublevação judaica contra os romanos e a posterior capitulação dos mesmos.
Da parte dos fariseus, a entrada na cidade santa com imagens ou estátuas era proibida, sob risco de morte. A ideia contida na necessidade vista pelos zelotes de liberdade política é a crença na imposição, por parte do Senhor, da redistribuição da propriedade, pois os pobres eram os eleitos por Deus. A situação de miséria na Palestina era interpretada como um sinal de que o fim era iminente.
A crucificação era o destino dos inimigos políticos dos romanos. Os zelotes, quando eram presos e ordenada a sua execução, eram equiparados aos ladrões. Jesus foi considerado um zelote ao ser crucificado ao lado dos ladrões.
 Em suma, são zelotes aqueles que respondem à situação de crise que se vivia no século I a.C. Vão-se a distinguir por serem constituídos por setores marginalizados que consideram a salvação como algo iminente, e que é equiparado com a liberdade, por intervenção divina. Isto é, uma transformação imediata da situação de Palestina e a libertação do domínio romano. Serão os instigadores da revolta dos anos 60 d.C.
 Estes se agregam em torno de um líder carismático que canaliza as opiniões do grupo e influi fortemente neles. Remontam-se ao Êxodo e o elegem como a etapa mais perfeita do contato entre Deus e o povo eleito.
É importante analisar, portanto, a proximidade e identificação do grupo de Jesus com os zelotes. Por serem movimentos contemporâneos, existem analogias entre estes e o grupo de Jesus, como podemos ver nos textos de Flavio Josefo, que ainda não distingue entre os diversos movimentos e suas diferenças. Os cristãos se consideram os portadores da segunda aliança com Deus e enfocam a salvação individual. O grupo de Jesus, por sua vez, é similar ao movimento de João Batista, que se assemelha aos profetas escatológicos do tempo do exílio. Estes estão convictos de que o juízo está próximo, a novidade é que Batista oferece o batismo como sacramento de salvação. Era de se supor que Jesus era seu seguidor, e seu batismo seria a prova de sua ligação com este grupo. Na tradição cristã, João é o precursor que anuncia a chegada do “Filho do Homem” profetizado no livro de Daniel e que Jesus é o cumprimento da profecia.
 O mesmo livro será interpretado como testemunha da pessoa e obra de Jesus, mas não mais com uma explicação política como muitos criam, mas espiritual. Não se refere à luta entre hebreus e romanos, mas entre o bem e o mau. Com esta ideia, vai se delineando, pouco a pouco, uma teologia que terminará por conformar uma religião diferente.
Os Essênios
 Os essênios surgiram dois séculos antes de Jesus, e estão incluídos entre os movimentos messiânicos de natureza sacerdotal, já que grande parte do grupo é formado por membros do baixo clero.
 O grupo foi formado em torno de um líder carismático (o Mestre da Justiça), e seus membros gozam de certo bem-estar (mantém boas relações comerciais e econômicas), e têm obsessão pela pureza ritual. Acreditam radicalmente na predestinação, tendo tendências fatalistas, o que os faz permanecerem afastados do convívio de outros grupos.
 Sobre isto afirma Michaud: “Os qumranianos  teriam seguido um sacerdote de alta categoria chamado Mestre de Justiça que teria recebido por revelação divina a correta interpretação dos textos bíblicos. Com a força desta inspiração, ele apresentava essas  idéias  novas sobre a prática da Lei, a  iminência dos últimos dias, o antigo calendário bíblico solar (oposto ao calendário lunar adotado à época helenística), a imperfeição do Templo atual e do culto que nele se celebrava. Esta teoria, que é sem dúvida a última palavra sobre o assunto, resolve a maioria das dificuldades levantadas contra a hipótese  essênia.  Deste ponto de vista, se os sectários de Qumran constituíam uma das formas do essenismo, não se pode dizer que todos os essênios viviam em Qumran ou em comunidades semelhantes. Josefo (GJ 2, 124) e Filon de Alexandria (Hypothetica ou Apologia pro Judaeis 1 1, 1) já haviam notado a presença de essênios fora de Qumran. Presença até mesmo em Jerusalém, onde Josefo (Gf 5, 145) menciona a existência de uma Porta dos Essênios, indicando que essênios ocupavam talvez todo um bairro da cidade. Mas também num bom número de aglomerações do país. O número de quatro mil membros aventado por Filon (Quod omnis probus, 75) e Josefo W 18,20), e que se aproxima dos seis n-úl fariseus mencionados por Josefo no tempo de Herodes, ultrapassa evidentemente as capacidades do próprio local de Qumran e de seus arredores. O fato de terem sido encontrados esqueletos de mulheres e de crianças em cemitérios de Qumran (na verdade, foram encontrados três cemitérios em Qumran: um grande, de mais de mil túmulos, contendo somente restos masculinos, e dois pequenos, onde também foram encontrados restos de mulheres e de crianças), quando os essênios, segundo Fílon, Plínio e Josefo, viviam num completo celibato, também pode ser explicado por este desvio do movimento (...).
Os essênios denominam a si mesmos de “pobres de espírito”, acreditam na imortalidade (junto a Deus), mas não acreditam na ressurreição do corpo.
 Para eles, a alma é uma parte de Yahweh. Acreditam no valor precioso para a salvação da morte por meio do martírio em nome de Deus.
 O messianismo essênio cultivou relações com o movimento de Jesus de forma mais íntima num período posterior à morte do mesmo, e a ressurreição passou a ser um elemento essencial da crença essênia.
Os essênios criam que o novo mundo emergeria, trazido pelo próprio Deus, e surgido através da luta e vitória dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas.
 Ainda que as diferenças entre os essênios e o grupo de Jesus sejam numerosas, existem analogias entre os grupos, devido ao contexto em que se inserem e porque procedem de um tronco comum.
Alguns essênios, ao ser destruída Qumram e o Templo nos anos 60 d.C., uniramse ao movimento de Jesus; é por isso que alguns autores explicam as similitudes em expressões e rituais, mas é difícil delimitar quais são as influências essênias e quais as judaicas no cristianismo.
 Depois da queda do Templo, o judaísmo tornou-se mais dogmático e, a partir do ano 70, os judeus foram mal vistos pelos romanos devido à revolução.
A concepção romana de que os judeus eram traidores fez os cristãos começarem a querer se diferenciar dos grupos judaicos, inclusive dos essênios.
Além das influências dos grupos religiosos, o Cristianismo também tem, em seus elementos ortopráticos e ideológicos, pontos de contato com o judaísmo normativo, e isto porque o próprio Jesus não rompeu definitivamente com o judaísmo.
 No princípio, o cristianismo foi um fenômeno intrajudeu, mas depois se tornou independente, devido às diversas tendências que se criaram entre os cristãos. É um fenômeno sócio-religioso que deve ser analisar não apenas pelo desenvolvimento da teologia cristã, mas também pelos caminhos sociológicos e antropológicos do cristianismo.
 Jesus é um judeu observante da Lei, que se comporta como um doutor da lei ou um profeta itinerante, cujo fim era fazer chegar os textos sagrados aos pobres (bem-aventurados) com propostas radicais dentro de seu círculo.
 Não recusa aos impuros, pois entende que não estava dentro das suas possibilidades econômicas  ascender socialmente.
 Não tratava questões meramente rituais com rigor, como a questão dos alimentos, e a forma como a lei exigia que fossem tratados.
 Não foi herético, nem rebelde, mas zeloso com algumas normas de pureza judaica.
 Jesus também pode ser visto como um polemista judeu por sua alta compressão da Torá, que está no nível da compreensão dos fariseus sob o ponto de vista dos seus contemporâneos, com a diferença que ele podia ter optado por mover-se num espaço privilegiado, mas preferiu dedicar-se aos marginalizados.
 Os evangelhos apresentam Jesus introduzindo nenhuma teologia distinta da que já existia no judaísmo, nem em sua vida pública, até sua morte.
Por isto, o cristianismo não consistia num novo culto, nem um atentado contra a lei estabelecida, e nem uma nova visão cosmo-histórica como a da comunidade de Qumram,  nem propunha outro calendário (até aquele momento).
No início, o cristianismo era uma parte do judaísmo e era herdeiro do mesmo. As etapas mais importantes da vida de Jesus eram vistas de forma semelhante a de outros personagens bíblicos.
Quando o Cristianismo se cindiu do judaísmo e descobriu suas próprias respostas à crise desta religião depois da destruição do Templo, assumiu outras influências de tradição clássica como a grega (por exemplo, o “logos”, sendo posta em segundo plano a figura de Yahweh e também de outras comunidades como as de Qumram).
Por fim, o movimento de Jesus é uma renovação explicável.
Jesus se separou do grupo de João Batista antes de sua morte e também levou seguidores com ele.
A destruição do Templo será sempre um ponto de referência pois supôs a separação da arca da aliança.
O cristianismo foi para Roma, já que na urbe passava mais despercebida a fé cristã. Utilizamos a palavra movimento para definir a um grupo que tem um líder carismático e situa-se à margem das estruturas políticas – e às vezes é contrário a elas – e do funcionamento econômico, com princípios excêntricos, com os quais se preocupa de forma imediata. É um grupo socialmente qualificado e com uma breve duração no tempo, a não ser que se institucionalize, como foi o caso do cristianismo.
O Movimento de Jesus Como Movimento  Milenarista .
Quando os sociólogos falam de movimentos, costumam definir os mesmos através de naturezas diferentes. Para definir o cristianismo, é comum a utilização da classificação deste como movimento milenarista.
Os movimentos milenaristas surgem em situações de crises e de brusca mudança social, pois as velhas estruturas não são capazes de assimilar as mudanças (o caso da Palestina, com a irrupção do domínio romano).
 Expressam os anseios e interesses dos judeus, dos grupos marginalizados economicamente que têm outras necessidades ao perder paulatinamente seus elementos de identidade, e ao sofrer graves carestias, que conduz a uma tomada de consciência e à busca de um passado ideal.
 Os movimentos milenaristas também protestam contra a ordem estabelecida e anunciam uma nova ordem de forma iminente.
Quando Jesus anuncia o Reino de Deus, anuncia um futuro novo e próximo. O Reino de Deus é o futuro próximo, mediado pelo drama escatológico, pela iminência do fim. Conforme afirma Steggemann:
“A palavra-chave "reino de Deus" acentua a nova situação com que Jesus e seu séquito se viam confrontados no drama escatológico, porque "ela corresponde ao ideal  tradicional e contemporâneo do rei, que é auxiliador e benfeitor, e não administrador de coisas".
Portanto,  na concepção do estabelecimento do reinado de Deus aparece, em primeiro plano, o elemento positivo da dominação, o auxilio.”
Os movimentos milenaristas também são marcados pela crítica à ordem econômica, já que socialmente está presente junto às classes mais pobres, onde estes são chamados de bem aventurados.
Jesus se apresenta crítico com a lei da proibição da comida no sabbat, com a imposição dos sacerdotes.
O profeta que interpreta todos os elementos não é uma autoridade tradicional (nem hereditária, nem legal, que não é um sacerdote ou juiz), mas tem como principal qualidade pessoal estar em contato com a divindade.
 A eleição do mesmo é decisiva e também simbólica, já que este tem uma grande influência diante do resto do grupo. É por isso que quando este desaparece, a sua figura é mitificada.
 O cristianismo, ao endossar os livros proféticos, mostra Jesus como o cumprimento dos mesmos.
Jesus é transformado numa figura mítica.
 O movimento milenarista também dá aos pobres maior relevância. Concede a eles uma nova identidade.
Ser cristão é sentir-se renovado, é o começo de uma identidade em nível pessoal e comunitário.
Não existe inicialmente no cristianismo uma elaboração teológica que primasse as suas atividades vitais. Em geral, as comunidades com caráter milenarista são de curta duração, salvo o caso de se institucionalizem – o que foi o caso.
 O cristianismo, no princípio, também não possuía um corpus teológico, e foi sensivelmente subversivo, e só se desenvolveu teologicamente quando se institucionalizou, aceitou a ordem estabelecida, convertendo-se numa igreja com um dogma e um corpus teórico.
O Reino de Deus:
Perspectivas Escriturísticas sob um Enfoque Crístico
O Reino de Deus é um conceito fundamental para a compreensão da liberdade cristã. O cristianismo e a liberdade sob a ótica cristã, para serem compreendidos, o são na perspectiva dos textos normativos da sua confissão religiosa: os textos da Escritura Sagrada.
 A perspectiva cristocêntrica do Reino de Deus, que consiste na condição plena e ideal da liberdade sob a ótica cristã, para ser analisada de forma eficaz, necessita da análise de cada elemento que contribuiu na construção da teologia sobre o assunto.
O Antigo Testamento, lido cristologicamente, e as tradições do Novo Testamento sobre o Reino de Deus constituem o caminho para compreender o conceito de Reino de Deus, e a posteriori, o conceito de liberdade cristã.
O Reino de Deus no Antigo Testamento
O Antigo Testamento apresenta desde o seu início a necessidade de se ter esperança e confiança na aliança feita por Deus com o ser humano.
Isto se faz através das diversas tradições sobre as alianças feitas com Deus em momentos decisivos da história da salvação.
Inicialmente a música é descrita como sendo feita, diretamente com o povo de Israel, na demonstração de Yahweh como o provedor de uma farta terra e uma numerosa nação que nasceria em Abrão.
 A compreensão teológica a partir daí aponta para o fato de ser apenas  Deus aquele quem satisfaz plenamente as profundas aspirações e necessidades do povo de Israel.
O status quo passa a ser entendido na perspectiva de um Deus que acolhe e abençoa seu povo.
 Esta promessa, seguida da esperança do cuidado de Deus, é o fio através do qual se delineará a ideia da soberania divina.
 A história da salvação consiste na manifestação de Yahweh na história, guardando o povo com quem ele fez a aliança. O Antigo Testamento consiste num relato desta relação entre a divindade e o povo de Israel, de tal forma que tais concepções progridem até a afirmação tácita da instauração do Reino de Deus.
O anúncio veterotestamentário aponta para o Deus de Israel como aquele que concretiza na história o futuro de seu povo, trazendo à existência aquilo que era apenas expectativa e esperança.
O projeto redentor de Deus torna-se realidade na plenitude dos tempos.
A esperança alimentada por Israel contempla o futuro e estabelece-se através da fé nas promessas do Deus criador.
Toda a expectativa quanto à chegada do Reino de Deus está unida à esperança de que homens e mulheres, bem como toda a criação, hão de encontrar a plenitude da salvação, o sentido último de toda a criação de Deus, para a qual o próprio Deus está conduzindo todas as coisas.
Esta condução se entende naturalmente, e baseia-se na Lei.
Esta concepção é registrada a partir dos relatos das origens do povo de Israel.
Excluindo o testemunho da origem do mundo (Gn 1-11), a narrativa dos primórdios do povo de Israel é marcada pela ideia de aliança – ideia esta dinâmica.
E o paradigma da confiança é a demonstração do cumprimento das promessas de Deus ao patriarca Abraão.
 O patriarca recebe uma dupla promessa: de que seria uma grande nação e que herdaria uma terra.
 A partir desta promessa é estabelecida a aliança e a história progride para o cumprimento desta promessa feita a Abraão.
 Mas a confissão de fé de Israel nos termos do pacto está presente de forma mais marcante na narrativa do Êxodo.
 Esta narrativa consiste na afirmação da fidelidade de Deus, que não esquece o povo que escolheu, o povo com o qual  Ele opta por fazer uma aliança de cuidado, proteção e bênção.
A esperança em Deus, fundamentada em sua ação libertadora, marcou a história do povo de Israel, de forma a interpretar constantemente as expectativas de libertação sob o paradigma do Êxodo.
 Lemos a seguinte afirmação: “A história do povo de Israel se inicia por uma experiência de libertação política: a do Êxodo (chamaremos aqui  de "Êxodo" o conjunto de acontecimentos que vão da escravidão no Egito até a instalação na terra prometida).
E essa recordação marcou tão fortemente o povo que, no decurso dos séculos, ele sempre se volta para o acontecimento do Êxodo.
Se lermos as mais antigas profissões de fé feitas por Israel, verificaremos que apresentam o Senhor como aquele que fez o seu povo sair do Egito e que o conduziu até a terra na qual o estabeleceu (ef. Dt 26,5- 1 0; Js 24,2-23).
Se tomarmos  em seguida o livro mais recente do Antigo Testamento, veremos que a meditação sobre o Êxodo ocupa mais da metade dele (Sb 1 0, 1 5-1 9,22).”
 Mas o desenvolvimento mais claro de uma concepção mais exata do conceito de Reino de Deus  se dá no estabelecimento da monarquia.
Geralmente se aceita que o conceito de Reino de Deus  e a consequente invocação de Yahweh como melek (rei) não são anteriores à instauração da monarquia israelita, a partir do ano 1050. a.C.
 Logicamente, quando os israelitas chegaram a Canaã, encontraram cidades cananeias bem fortificadas nas zonas mais férteis do país.
Sem dúvida, os israelitas, que combatiam a pé, ficaram atemorizados ao ver as carroças de guerra dos habitantes do lugar e optaram por ficar nas zonas montanhosas e pobres que os cananeus tinham deixado desabitadas.
 É isto o que está por trás do relato escriturístico:
 “Não podemos subir contra esse povo,  porque é mais forte que nós (...).
 Nós nos tínhamos ante eles como  gafanhoto e isso mesmo lhes parecíamos a eles” (Num 13, 31-33).
Os israelitas ocuparam as terras marginais de Canaã e as primeiras figuras de autoridade, os juízes – também chamados de melek – se estabeleceram como lideranças eventuais e libertadores do povo, nos períodos de opressão.
 Esta opressão foi consequência do conflito com os filisteus, que tinham sido expulsos pelos egípcios das suas terras, e passaram a disputar os territórios ocupados pelos israelitas.
 Os israelitas sofreram duas grandes derrotas ( 1 Sm 4,1-7,1), nas quais perderam, inclusive a Arca da Aliança, recuperada através da ação de Davi, que geraria ao mesmo tempo, uma expectativa positiva para a monarquia davídica, mas posteriormente a frustração com os reis humanos, como diz Cazzeles:
“Desde o fim do reino de Davi, a experiência  começa a decepcionar, e a crise, incubada durante o reino de Salomão, estourou com a sua morte.
A ideologia real se mostrou artificial e, se proporcionou um certo bem-estar ao povo, foi incapaz de promover sua verdadeira libertação.”
Israel, naqueles tempos, comparado com as nações vizinhas, era um povo primitivo. Seus costumes sociais, suas instituições políticas e sua própria cultura eram ainda as correspondentes a uma vida singela e semi-nômade.
 As doze tribos consideravam-se um só povo e compartilhavam uma mesma fé, mas careciam de um chefe único e da mínima organização político-social e também militar.
 Ao perceberem que os vizinhos eram fortes, precisamente porque dispunham de uma organização política – tinham reis (os cananeus) ou príncipes (os filisteus) – os israelitas desejaram ter um rei “como todas as nações” (1 Sm 8, 5).
De maneira que, no santuário de Gilgal, todo o povo proclamou “rei a Saul diante de Yahweh” (1 Sm 11, 15).
O fato é que Saul conseguiu importantes vitórias sobre os filisteus, mas ao final as tropas israelitas foram derrotadas (1 Sm 31).
Os filhos de Saul morreram na batalha, e ele mesmo, para não cair em mãos de seus inimigos, tirou a própria vida.
Então as seis tribos do sul elegeram a Davi “rei da casa de Judá” (2 Sam 2, 4). Davi se casou com Mical, a filha de Saul, e dessa forma também as tribos do norte reconheceram sua autoridade (2 Sm 5, 1-3).
 Conseguiu acabar definitivamente com a ameaça dos filisteus (2 Sm 5, 17-21), submeteu depois às cidades cananeias, mais tarde derrotou aos moabitas e acabou criando um grande império que fazia sentir sua influência até a Síria central (2 Sm 10, 1-11, 1; 12, 26-31).
Tudo isto foi obra de um homem com uma inteligência invulgar, que se viu favorecido pela situação geral do Oriente Médio.
Por aqueles anos nem o Egito nem a Mesopotâmia tinham o interesse de outros tempos por dominar a Palestina – essa estreita faixa que comunicava ambos os impérios – e por isto Israel só teve que enfrentar as potências de segunda ordem.
 Não é estranho que a figura de Davi – o homem que salvou às doze tribos da extinção e as converteu num grande império – fora idealizada.
O rei Davi foi considerado um dom divino para Israel, comparável às maravilhas que experimentou durante o Êxodo.
A profecia de Natã prometia a Davi uma “dinastia eterna”, e o “reino davídico” começou a fazer parte dos “credos” de Israel (2 Sm 7, 8-17).
A decadência do império teve início com o filho de Davi, Salomão. Salomão era filho de Davi e sua esposa favorita, Betseba, que tinha sido mulher de Urias (2 Sm 12, 24).
Provavelmente esta é a razão pela qual as tribos do Norte não aceitaram bem o sucessor de Davi.
Soma-se a isto o fato de Salomão ter aumentado o luxo da corte e ter construído numerosos edifícios, entre eles o Templo de Jerusalém, com recursos advindos dos impostos cobrados.
 A tradição descreve o caráter extraordinário das obras majestosas de Salomão (1 Re 10, 14-22) e a posteridade fala de suas enormes riquezas e da sua magnificência (Mt 6, 29).
É possível que o esplendor da monarquia de Salomão trouxesse admiração e também orgulho, mas é evidente que o povo gemia sob o peso dos impostos cobrados para manter tanta ostentação.
 Salomão dividiu o território israelita em doze distritos. Cada mês, um distrito era responsável de atender às demandas da corte (1 Re 4, 7).
Salomão também implantou o sistema de trabalhos forçados ou obrigatórios (1 Re 9, 15.20-22).
O fato é que após a morte de Salomão (ano 925 a.C.) dividiu-se o Império: as tribos do sul mantiveram a dinastia davídica, mas as tribos do norte reimplantaram o costume eletivo que subsistiu  na escolha de Saul.
O que tinha sido um império poderoso se converteu em dois reinos menores – o de Israel (ao norte) e o de Judá (ao sul) – e ambos, depois de um período de decadência, acabaram perdendo inclusive sua independência, no ano 733 a.C.
A Assíria fez de Israel uma província de seu Império e no ano 587 a.C.
 a Babilônia fez o mesmo com Judá, chegando ao extremo de arrasar Jerusalém, destruir o Templo e deportar quase toda a sua população. A partir de então ambos foram passando de mão em mão, segundo as potências sucediam umas às outras (Ptolomeus, Selêucidas, Roma etc).
O balanço dos quinhentos anos de independência não foi brilhante.
O autor deuteronomista produziu uma opinião desfavorável em relação à monarquia (1 Sm 12).
Desqualifica 19 reis do Reino do Norte e a todos os do Reino do Sul, exceto Davi, Ezequias e Josias.
No entanto, a esperança de um novo florescimento está presente no texto. Renascia e morria a cada novo rei, ou seja, algum dia o verdadeiro rei teria de chegar e poria tudo em seu lugar, tal como – de acordo com a saga e a poesia - tinha feito em outro tempo Davi.
 Dos vários textos que até pouco críamos que faziam referência ao messias, majoritariamente estes fazem menção às expectativas criadas ante ao nascimento de um novo rei (Is 7, 10-14; 9, 1-6; os salmos reais etc).
As passagens realmente messiânicas são todas elas posteriores à queda da monarquia. Efetivamente, a partir do exílio, quando todas as esperanças razoáveis tinham se dispersado. A dinastia tinha desaparecido, Jerusalém estava arrasada e o Templo mesmo não era nada mais que um montão de ruínas.
Alguns homens começaram a alimentar a esperança, despojada já de todo cálculo humano, numa intervenção direta de Deus, que restauraria o trono de Davi.
Mowinckel  afirma que “O Messias é singelamente o rei desse reino futuro, nacional e religioso, que um dia se estabelecerá graças à intervenção milagrosa de Yahweh.”
Posteriormente o entendimento da fidelidade de Yahweh era projetado ao Templo e à cidade de Jerusalém. A idéia de que a cidade santa e o Templo nunca seriam destruídos, por serem habitação de Deus, estabeleceu-se de forma tão marcante que a destruição do Templo e da cidade constituíram um duro golpe contra a fé javista.
Neste sentido é que surge a esperança ou expectativa do advento do Messias. Inicialmente projetada para a figura do rei, e eventualmente para a figura do sacerdote, a idéia de messianidade foi se apresentando mutável no Antigo Testamento.
O rei seria o libertador, a garantia do cuidado divino. Para isto ele era ungido e esta era sua principal função.
 A idéia da teocracia judaíta, por exemplo, passa necessariamente pela concepção de que o Reino é governado pelo Senhor através do rei, ungido por ordem do próprio Deus para ser representante da divindade.
O Antigo Testamento é um texto de esperanças. De forma geral, a autocompreensão de Israel preponderante após o exílio era que este continuava sendo o povo de Deus. Esta convicção foi manifestada na própria manutenção da vida religiosa e da manutenção dos elementos que constituíam a identidade nacional – e estes majoritariamente apontavam para a fé em Yahweh.
 A esperança consistia na firme confiança na bênção e na proteção de Yahweh, como consequência de suas promessas no pacto da aliança.
Esta aliança não é estática, mas dinâmica, sendo atualizada e reafirmada através da obediência.
A obediência era apresentada como garantia das promessas do pacto, podendo aquele que procedia bem ter confiança e a esperança no cuidado de Deus com seu povo, não obstante circunstâncias exteriores negarem a possibilidade de reafirmação da soberania de Yahweh.
Esta reafirmação se dá por volta de 200 a.C., pela literatura apocalíptica, e sua temática sobre o Reino.
 O exílio constituiu um desafio à fé. Era inicialmente o risco da negação da promessa feita por Deus ao povo.
Resumidamente, a esperança de Israel  foi sempre em torno da ação de Deus na realização da história da salvação, sendo o Reinado de Deus o fundamento desta esperança.
Conforme afirma Crossan:
 “O Reino de Deus é povo sob governo divino - e isto, como ideal, transcende e julga todo o governo humano.  O foco da discussão não está em reis, mas em governantes, não no reino, mas no poder, não no lugar, mas no processo. O Reino de Deus é o que o mundo poderia ser se Deus estivesse direta e imediatamente à sua frente.  Mas mesmo dentro dessa compreensão da expressão, é possível  e necessário imaginar uma tipologia quádrupla básica do Reino de Deus no uso judaico da época de Jesus.
 Imaginem-se quatro quadrantes ou tipos criados pela intersecção de dois eixos. Um eixo é uma distinção de tempo, com o futuro ou presente em cada extremidade. O outro eixo é uma distinção de classe, baseada mais uma vez no modelo de Lenski, com os Arrendatários ou elites de escribas em uma extremidade e os Camponeses ou pessoas comuns na outra.”
 O desaparecimento do reinado em Israel e em Judá frustrou a idéia de um reinado e até de um sacerdócio divino. O caos nacional e a ausência da figura real, atrelada a uma dinastia (no caso de Judá) criou uma crise que foi abordada pelos profetas e demais escritos exílicos.
O não cumprimento das expectativas temporais devido às tragédias nacionais e aos exílios culminaram na projeção da esperança às realidades transcendentais e supramundanas.
A idéia de um restaurador legítimo da casa de Davi sucumbiu diante da idéia de uma figura ideal trazendo traços idênticos a heróis do passado.
 Neste contexto surge a escatologia e depois deste, da apocalíptica judaica, onde surge de forma incipiente o conceito de Reino de Deus.
 As interpretações e consequentes projeções da esperança nacional  foram diferentes em cada época e em cada escola que procurou resolver o impasse teológico que se estabeleceu: como o Deus que prometera  cuidar do povo permitiu o opróbrio e a vergonha estabelecidas a partir da ruína da monarquia.
As respostas foram diferenciadas. O Deutero-Isaías, por exemplo, anuncia o advento do Servo de Yahweh, que concretizaria toda expectativa de Israel. Na verdade, o servo sofredor de Yahweh cumpriria a missão de profeta da nova libertação, do novo êxodo, seria o sacerdote da reconciliação e assumiria em si mesmo o sacrifício da redenção.
Em suma, o Reino de Deus no Antigo Testamento está vinculado à noção da soberania ou governo de Deus.
 É Moltmann quem fala de dois momentos relacionados entre si dentro desta concepção de Reino de Deus, isto é, a esperança concreta do Reino de Deus na história e o estabelecimento do seu senhorio único e universal sobre todas as coisas. A relação entre ambos constitui as bases do conceito de reino.
Porém há outros elementos que constituem o conceito, como apresenta Gardner: “Apesar de não se encontrar no Antigo Testamento  a expressão ‘Reino de Deus’, a ideia em si, aparece em quase todas as suas partes.
De igual modo, apesar de à parte dos Evangelhos Sinóticos o título ser usado raramente no Novo Testamento, toda a mensagem de Jesus se focaliza sobre o Reino de Deus (cf. Mc 1.14,15), e a ideia mesma se apresenta sob muitas formas diferentes – por exemplo, como vida eterna no Quarto Evangelho e como misticismo em Cristo no caso de Paulo – através de todo o Novo Testamento.
 Na verdade, tão penetrante é o conceito de Reino de Deus no pensamento do  Antigo e do Novo Testamentos, que se constitui num dos temas principais a manter os dois unidos”.
 As duas dimensões basilares do Reino na concepção de Moltmann não são excludentes, posto que a primeira carrega a contingencialidade do tempo e do espaço, enquanto a segunda diz respeito a uma fé universal.
 Ou seja, a dimensão do senhorio universal de Deus tem seu ancoradouro na ação histórica de Deus, uma vez que o seu Reino vive a dinâmica do “já” e do “ainda não”, sendo promessa concretizada, mas ainda esperança futura para toda a criação.
 Na linguagem de Boff o presente já contém o seu fim. Por isso ele diz que devemos falar não de fim do mundo, mas de um novo começo do universo.
 Ainda para Moltmann, a criação, pela chegada do Reino, tornar-se-ia residência da glória de Deus.
Segundo a tradição escriturística veterotestamentária, desde o início da criação, o mundo caminha na direção de sua salvação. A história é a heilgeschichte.
O conceito pós-exílico de Reino de Deus progrediu sobre os ditames da esperança.
 E atingiu uma amplitude maior nos escritos escatológicos e apocalípticos em particular. O ponto de partida para o início das especulações sobre a figura do Messias, sob cuja ideia se estabelece a ideia do Reino de Deus, é o livro de Daniel.
 Este livro, situado no contexto das guerras macabeias, é o expoente ideológico principal e ponto de partida para o desenvolvimento do conceito na literatura apocalíptica.
 A literatura apocalíptica, surgida a partir do século II a.C., foi fundamental para que os ideais judaicos de libertação ganhassem expressão e consequentemente ocupasse lugar entre os grupos religiosos.
 Esta literatura teve influência na formação de uma militância, que passou a compreender de forma imanentista a instauração da era messiânica, o que na prática constitui o conceito análogo a Reino de Deus.
 A tendência da apocalíptica em apontar para uma mudança dramática da sociedade e das estruturas sociais tem por pano de fundo sociológico o vexatório estado em que a sociedade concretamente estava.
A partir deste fenômeno é possível  entender a concepção de Reino de Deus dos grupos religiosos que surgiram na Palestina entre o segundo século a.C. e o período neotestamentário.
 O grupo dos assideus, que posteriormente originou o grupo dos essênios e dos fariseus, entendia a instauração do Reino de Deus como consequência das atitudes contra a helenização e opressão estrangeira.
 Dentro desta compreensão imanente de Reino, eles não se constituem um grupo definido, mas representam uma corrente ideológica posta em confronto com as forças que exerciam pressão e geravam o risco da perda da identidade nacional dos judeus.
 Eles não podem ser especificamente considerados principais fundadores do apocalipsismo, mas sim como possível influencia para o surgimento do farisaísmo.
 O Reino de Deus no Novo Testamento Quando o período neotestamentário surge, as expectativas messiânicas fazem parte do quotidiano dos principais grupos religiosos da época.
Esta ideia é assumida sob o enfoque imanente pela ideologia dos essênios, fariseus, saduceus e zelotas.
Para os essênios, a expectativa messiânica provocou a desviância – a retirada da sociedade majoritária e a consolidação de uma comunidade com estrutura social, literatura religiosa e regras próprias, para assegurar a constante presença de Deus. Esta ascese tinha por propósito a busca de uma ordem perfeita, até à vinda do Messias.
As figuras messiânicas aguardadas na comunidade de Qumram eram um descendente de Arão e um descendente de Davi.
O primeiro seria sumo-sacerdote e o segundo, um guerreiro. O estabelecimento da vontade de Deus se daria pela guerra ou conflito entre os filhos da luz e o filhos das trevas.
 Os fariseus  acreditavam na rigorosa aplicação da lei de Moisés.
Criam na manifestação do Reino de Deus, porém exclusivamente através da ação divina.
 O ser humano deveria cumprir a Lei, ter piedade individual e submissão à vontade de Deus.  Os fariseus entendiam que os judeus precisavam aguardar pacientemente o Messias, sendo este o instaurador de uma monarquia teocrática, onde o mal é erradicado, a paz é trazida e a justiça é estabelecida.
A pureza é a marca deste futuro.  Para partilhar dele, na concepção farisaica, é preciso viver seus valores antes da vinda deste Reino.  Os saduceus, na sua prática, manifestavam a ideia de que não era incompatível a dominação romana e o reino de Deus.
Seu foco estava no Templo, que controlava a vida do cidadão judeu, sendo a administração romana vista como facilmente coexistente por parte deste grupo.
Os saduceus, não obstante isto, tinham o sonho da autonomia política. O resultado disto era a sensação por parte do povo de que o Reino de Deus estava se manifestando pelas estruturas hierocráticas, mas não era pleno.
 Com a chegada de Jesus Cristo e sua nova proposta de vida, o que tornou o Reino de Deus uma realidade parcialmente concreta na história dos homens, as barreiras que dividiam a humanidade foram derrubadas e foi desencadeado um novo processo pelo qual na igreja e por meio da igreja uma nova humanidade foi e está sendo formada.
 Jesus Cristo inaugura um novo tempo, o “kairós” de Deus, uma nova época. Sabemos que as expectativas do Reino de Deus eram familiares no tempo do Novo Testamento, embora fossem conceitos muito diferenciados os dos grupos religiosos e do próprio Jesus.
 O Reino de Deus torna-se uma realidade histórica na pessoa de Jesus Cristo. Por isso que o propósito central do Novo Testamento é mostrar que, com a vinda do Messias, um novo tempo é instaurado e, através da pessoa de Jesus Cristo e de sua obra, o Reino de Deus tornouse uma realidade.
 Portanto, Reino de Deus e cristologia estão inseparavelmente ligados, pois segundo Leonardo Boff “Jesus prega, presencializa e inaugura este reino”.
 Na verdade, em Jesus se cumpre toda a esperança messiânica. Em A Santíssima Trindade Boff declara que “Ele é a total expressão do Pai”. Boff ainda declara sobre a realidade do Reino de Deus que: “Reino de Deus é a revolução e transfiguração total, global e estrutural  desta realidade, do homem e do cosmos, purificados de todos os males e repletos da realidade de Deus (...).
 No Reino de Deus a dor, a cegueira, a fome, as tempestades, o pecado e a morte não terão mais vez (...). Cristo veio para sanar toda a realidade em todas as suas dimensões, cósmica, humana e social (...). A intervenção de Deus já (foi) iniciada, mas ainda não totalmente acabada (...). A pregação do Reino se realiza em dois tempos, no presente e no futuro”.
Jesus inicia um tempo novo na história de Israel e da humanidade como um todo. Ele assume a esperança messiânica de Israel. É verdade que a expectativa de Israel girava, fundamentalmente, em torno de um messias libertador político, que livraria o povo da força imperialista de Roma.
Jesus enfatiza concreta e definitivamente a chegada ou a vinda do Reino. O Reino de Deus chega pela sua livre e soberana iniciativa. Aos homens cabe receber a vocação de Deus em e por Jesus Cristo, entrando no Reino na dinâmica da graça mediante o dom da fé.
 Não sem razão a pregação apostólica traz a mensagem do Reino. Assim, os encontramos espalhando as boas notícias de que Jesus é o Messias, ou que através dele as antigas promessas tinham se cumprido, e proclamando as boas novas da paz em Jesus, do senhorio de Jesus, da cruz de Jesus, da ressurreição de Jesus, ou simplesmente, do próprio Jesus.
 Esta pregação ou testemunho apostólico se faz pelos evangelhos, pelas cartas paulinas, pelas cartas gerais e pelos textos joaninos, que tratam do Reino de Deus sob enfoques distintos, porém sob o fundamento da pregação ou anúncio feito por Jesus. Os Evangelhos  A Questão das Fontes Salvo algumas referências, existem poucas fontes clássicas anteriores ao 112 d.C. Com exceção de Tácito e as “Perseguições de Nero”, Flávio Josefo, Suetônio e a correspondência entre Trajano e Plínio, os autores pagãos ignoraram os cristãos.
 Os demais que mencionam os cristãos só dão diversas interpretações aos fatos relatados por estas fontes primárias, e adicionam pouca informação.
Os primeiros cristãos tiveram como referência o Antigo Testamento, já que o Novo Testamento não se formou até meados do séc. II d.C. (150d. c).
O que se dá o princípio é uma tradição oral em que se dava valor aos fatos e ditos de Jesus que foram utilizados posteriormente nos evangelhos, aos que também foram adicionadas referências à sua vida e às palavras dele após a ressurreição. A estes relatos foram inclusos também elementos tradicionais. Junto com a tradição oral apareceram os textos de oração e de didascalía (ensino).
Os antigos cristãos tinham práticas litúrgicas que não eram originalmente suas. Reuniam-se para comer, para as celebrações litúrgicas nas quais a oração pelo pão era a mais marcante. As celebrações e reuniões serviam para transmitir a mensagem sobre Jesus, o Cristo.
 Já os cristãos da diáspora em sua maioria sabiam ler e escrever.
 Os primeiros cristãos puseram sob a forma escrita aquilo que era transmitindo nos primeiros tempos oralmente.
 Isto ocorreu devido ao desaparecimento do grupo próximo a Cristo, surgindo a necessidade de anotar as experiências dos que o tinham visto e ouvido, e tinham falecido.
Destes escritos, os evangelhos são tardios. São as recopilações destas anotações por escrito. Os lingüistas e os exegetas, através das contradições dentro dos evangelhos, percebem que estes parecem proceder de línguas diferentes como o grego, o arameu ou o hebreu. As didaquês são recopilações de textos fantasiosos ou ordinais que são emoldurados dentro dos textos apócrifos, que não chegaram a fazer parte dos evangelhos.
 Os textos cristãos mais antigos são os evangelhos, as cartas de João e as cartas de Paulo (escritas nos anos 50 d.C.). Estas últimas constituem o texto cristão mais antigo, conservados praticamente todos em documentos antigos do Novo Testamento.
São cartas públicas que entram no gênero de literatura aberta. Têm uma intenção organizativa, de criar estruturas de política eclesiástica e de propaganda. A fórmula literária enlaçava com os antigos modelos gregos ou hebreus, mas sobretudo por seu caráter evangélico itinerante.
Sobre isto, afirma Kee: “Primeiramente, Paulo emprega a carta como instrumento de sua autoridade apostólica. Ele não se pode fazer presente em todas as suas Igrejas ao mesmo tempo, mas o seu espírito o pode e, a seu ver, lá está (l Cor 5,4). O seu espírito está em ação "com o poder de Nosso Senhor Jesus' no solene julgamento de excomunhão (5,5).”
Entre os cristãos primitivos, existiam diversas correntes ortopráticas e teológicas. Por exemplo, Paulo negava as práticas judias (como a circuncisão) como elemento indispensável para assumir o cristianismo.
Esta postura não era aceita por todos, o que culminou na reunião das lideranças da igreja e a distribuição destes em áreas de influência mutuamente excludentes. A Paulo se lhe atribui a zona de Grécia e este utilizava as cartas para criar uma política organizativa.
 Esta forma era a que mais se aproximava à tradição oral de Jesus que está escrita como se fosse um discurso. As epístolas são um conjunto de cartas construídas segundo a tradição paulina e dirigidas às comunidades sob sua influência e responsabilidade.
 As epístolas chamadas de paulinas não são todas provenientes de sua pena. Algumas são de seus seguidores ou também atribuídas a ele de forma fraudulenta, porque o modelo epistolar de tradição paulina teve um grande sucesso. Todas as epístolas autenticamente paulinas foram escritas entre as décadas dos 50 e 60. Algumas epístolas se emolduram no grupo dos apócrifos, e outras são falsificações. Outros textos epistolares são a “carta de Clemente”
sucessor de Pedro, o “Apocalipse de João”, cujo epílogo é uma carta e as “cartas de Pedro”, também destinadas à organização dos grupos cristãos.
 Junto às cartas há compilações e coleções que falam de Jesus que a partir do segundo século da era cristã. Tratava-se ao princípio de formulações escritas de diversos autores e línguas cujo modelo também não é original já que estava recolhida da tradição grega.
Deste gênero se conservam os quatro evangelhos, o “evangelho segundo São Tomé” que se situa num contexto oriental (Síria) não chegou a Roma, e os apócrifos. Costuma-se unir a estes testemunhos cristãos os textos apocalípticos que partem da tradição judia como o “Apocalipse de João”.
 Estes textos dão lugar a uma infinidade de interpretações esotéricas e gnósticas que pretendem em origem confundir a profanos e os não iniciados.
 Os escritos teológicos foram os mais tardios, já que as primeiras comunidades cristãs eram mais vitalistas, mais do dia a dia, convictos de que a segunda vinda de Jesus estava próxima. Por isso não precisavam possuir uma teologia dogmática, mas sim convivencial, dado seu sentido prático. Desenvolviam mais a tradição oral e escritos dispersos.
Na segunda geração esses escritos se ordenaram e foram desenvolvidas as epístolas. É na terceira geração que foram formados documentos mais dogmáticos, quando desapareceram as testemunhas diretas e aumentou a distância em relação ao tronco comum do judaísmo.
Nascem da necessidade de perpetuar a informação, tal é o caso da “Epístola aos Hebreus” ou a “Epístola de Bernabé” que não está incluída no Novo testamento. Foram conservados poucos documentos que procediam dos cristãos de base; os que mais se aproximam são as atas dos mártires.
 Há diferentes tipos. O primeiro deles são as atas, que constituem notas advindas dos juízos dos romanos sobre os cristãos. Não se conservam muitas, já que muitas foram queimadas nos processos de perseguição. O segundo tipo de evidência é a vida dos cristãos, obtidas a partir dos depoimentos dos primeiros mártires recolhidos pelas testemunhas. Estes textos são posteriores à formação do cânon.

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